A Decepção Faz Parte da Vida

Professor José Augusto Abreu Aguiar

 Muitas pessoas já experimentaram a decepção como um sentimento que, de forma radical, provoca tristeza, frustração, descontentamento, desapontamento e desilusão, em decorrência de uma expectativa vivida e não concretizada. Ela é, metaforicamente, como um abismo que separa nossos desejos e sonhos da possibilidade efetiva de realizá-los, de vivê-los. Porém, não podemos permitir que ela possa produzir em nós uma atitude de imobilidade. Apesar das decepções a vida deve continuar.

Precisamos saber que a decepção faz parte da vida, ela é inerente à nossa natureza humana e pode ser vista como um fator decisivo para o nosso crescimento. Quem de nós ainda não experimentou um momento na vida que tenha produzido uma discrepância entre aquilo que desejamos e aquilo que alcançamos? Quem de nós ainda não ficou decepcionado, triste, frustrado por não ter tido sucesso em algum empreendimento na vida? Quem de nós ainda não experimentou um profundo vazio por não ter sido correspondido, como sonhava, em uma relação profissional, de amizade ou amorosa? Acredito que todo mundo. Agora, não podemos permitir que a decepção determine para nós um comportamento negativo, uma maneira apática de existir e ser no mundo.

A decepção deve ser vivida como algo que possui valor, como algo que nos faculta, olhando a realidade de frente, lidar com suas consequências e mobilizar recursos para superá-las. Logo, precisamos ver a decepção como promotora do desenvolvimento humano.

Escrever que a decepção pode e deve ser entendida como algo positivo, é fácil. Complicado é tornar tal afirmativa uma verdade. Não existem receitas prontas para tal tarefa. Acredito que, num primeiro momento, devemos ter consciência de que o ser humano é imperfeito, consequentemente decepcionamos a nós mesmos, a outras pessoas e somos decepcionados. Reconhecer esta faceta da experiência humana ajuda-nos, inicialmente, a lidar com as dores da tristeza, da frustração, do descontentamento, do desapontamento e da desilusão, as dores da decepção.

Posteriormente, após reconhecermos e aceitarmos nossa imperfeição, nossas limitações, devemos iniciar um processo de desenvolvimento de nossa capacidade de aceitação de nossos erros, nossa capacidade de amar e entender a imperfeição dos outros. Assim sendo, o fardo da decepção fica mais fácil de ser carregado e superado.

Entendido que somos seres da imperfeição e que precisamos também aceitar nossas imperfeições, aceitar a imperfeição do outro, é preciso que construamos em nosso interior a capacidade de tolerarmos as diferentes expressões da decepção. Quando toleramos a decepção, ainda que o ser humano esteja em constante evolução, somos capazes de construir uma força emocional geradora das habilidades necessárias para o enfrentamento dos seus sentimentos negativos. Aí está, pois, a mais importante chave para lidarmos com a decepção.

Por fim, não tenhamos medo de falar sobre nossa decepção. Ao falarmos sobre ela, com diferentes pessoas de nossa confiança, estaremos desvelando os mistérios da mesma, seus motivos e acontecimentos, estaremos promovendo a recuperação de nossos sentimentos positivos e, consequentemente, restabelecendo nosso equilíbrio emocional.

A decepção não pode produzir em nós, ainda que tenha sido uma experiência profundamente desgastante, efeitos que impeçam que nossos objetivos e sonhos sejam concretizados. Não podemos desistir de nossos objetivos, não podemos deixar que a decepção faça-nos “viver sem vida”, sem paixão e entusiasmo, torne cada um de nós um zumbi, ser sem alma, apático, que desistiu de sonhar.