A Dor dos Refugiados. Nossa Dor?

Professor José Augusto Abreu Aguiar

 Hoje, no norte da África e no Oriente Médio, a violência tornou-se algo natural, parte indissociável da história, a partir de uma série de guerras civis em curso em países islâmicos. Vivem as consequências da violência, da banalização da vida, a República Centro Africana, a Nigéria, a República Democrática do Congo, o Sudão, o Sudão do Sul, a Eritrea, a Somália, a Etiópia, a Síria, o Iraque e o Afeganistão. Em decorrência das guerras civis existem milhões de pessoas vivendo, como “zumbis”, em campos de refugiados em vários países. São pessoas que perderam tudo e conseguiram, a duras penas, salvar as suas vidas.

Países como o Líbano, a Jordânia, o Quênia e a Tailândia que recebem refugiados estão “lotados” e não possuem mais condições de recebê-los, ocasionando o fechamento de suas fronteiras. A vida nos campos de refugiados é dura e sem perspectiva de futuro. Neles, o direito ao trabalho não existe e acarreta a agudização da dependência. Diante de tal realidade, muitos optam por continuar migrando, em especial para a Europa, produzindo um duplo desafio para as autoridades européias: “impedir os refugiados de vir à Europa ou criar modelos globais, revolucionários e sustentáveis, de assistência a refugiados”.

A dor dos refugiados, cheia de episódios tristes, frutos da insensibilidade humana, pode muito bem ser retratada através de duas notícias veiculadas na mídia e que tiveram uma grande repercussão internacional. A primeira, estampada nas primeiras páginas de todos os jornais do mundo, no mês de setembro de 2015, mostrava a foto do menino sírio Aylan Kurdi, três anos, cujo corpo jazia com o rosto quase enterrado à beira-mar na praia turca de Ali Hoca, no vilarejo de Bodrum. Sua morte, absurda, ilustra, com dor e sofrimento, o drama das famílias de refugiados sírios, afegãos e iraquianos, na tentativa de deixar o violento país de origem para se agarrar a uma chance de vida, mesmo que em destino desconhecido e numa travessia, pelo Mar Mediterrâneo, repleta de riscos. A segunda notícia, de janeiro de 2016, bem atual e uma das causas fundamentais das migrações, relata as dores dos habitantes de Mandaya, cidade síria perto da capital Damasco: “crianças e adolescentes famélicos, em pele e osso, incapazes de se mover. Idosos macilentos e catatônicos, deitados no chão à espera de algum alimento, um pedaço de pão – um milagre, talvez”. A revista americana Foreign Policy afirmou que organizações de ajuda humanitária internacionais acusam a ONU de saber, desde outubro de 2015, da situação desesperadora de Madaya. Ao menos seis crianças e 17 adultos morreram de inanição em dezembro.

Apesar da mídia, vez por outra, apresentar notícias relacionadas ao problema dos refugiados, sabemos que o drama, com todas as suas implicações, não ocupa o espaço que deveria ocupar nos diferentes veículos de comunicação. Não ocupa também posição de destaque nas agendas dos países, especialmente os ricos, Tal postura provoca um desconhecimento perverso do drama em uma parcela significativa da população mundial. Como consequência, tal fato não comove as pessoas e, muito menos, provoca uma reflexão que produza soluções para a situação dramática daqueles que tiveram de deixar seus países para não morrer.

A questão central do problema, uma possível resposta para o mesmo, apesar de vivermos uma grave crise econômica, envolve os cidadãos e, especialmente, muitos governos, para que exista uma efetiva possibilidade da criação de modelos globais, revolucionários e sustentáveis, de assistência a refugiados. Os países mais desenvolvidos e que estão sendo diretamente impactados com o fluxo dos refugiados para seus territórios ficam em cima do muro: por um lado não possuem coragem para assumir uma posição radicalmente contrária ao fluxo migratório e, por outro, não priorizam o atendimento aos refugiados, que em alguns casos são percebidos até mesmo como problema de segurança nacional. O que vemos e devemos louvar são as ações das organizações não-governamentais, como os Médicos Sem Fronteiras, em países vizinhos a regiões de conflitos, que realizam um trabalho humanitário fantástico, apesar de muito perigoso.

Sabemos que não existe uma solução mágica para o problema. O que existe e foi relatado acima, é a possibilidade da criação de modelos globais, revolucionários e sustentáveis, de assistência a refugiados. Porém, para que tais modelos existam é preciso que a humanidade viva um processo de mudanças internas, identificado com uma renovação interior de cada pessoa, onde valores como compaixão, cooperação, esperança, ética, fraternidade, igualdade, justiça, paz, perdão, respeito, responsabilidade, sinceridade, solidariedade e tolerância passem a fazer parte das agendas, privadas e públicas, de todos os povos, de todas as nações, de todos os países, de todos os seres humanos.

Finalizo meu artigo com as palavras do Papa Paulo VI, proferidas no dia 09 de maio de 1973, ao anunciar o Jubileu do ano 1975: “Bisogna rifare l’uomo dal di dentro”, isto é, “Temos de refazer o homem de dentro”. Refazendo o homem a partir do seu interior, passamos a ter esperança, a ter a possibilidade real de vivermos o esperançar, a força que nos torna resilientes, capazes de lidar com nossos próprios problemas, vencendo obstáculos e não cedendo às pressões, seja qual for a situação.