Armanda Zenhas (professora)

“A aquisição ou a modificação de hábitos e rotinas não é fácil para adultos nem para crianças”.

Se o gosto pelo estudo não existe e se a família, ainda por cima, não o valorizar, será difícil que ele se transforme num hábito. Quando um estudante muda de ciclo de ensino, precisa de se adaptar às especificidades da nova situação a todos os níveis, incluindo no que diz respeito à organização do seu estudo individual. Talvez a dificuldade seja maior entre o Fundamental I (um professor determina as tarefas de casa para o dia seguinte) e o Fundamental II e Ensino Médio (cada professor determina as tarefas para a próxima aula, que pode não ser no dia seguinte).

A articulação entre a escola e a família podem ajudar a ultrapassar as dificuldades e a contribuir para a aquisição ou a melhoria dos hábitos de estudo ao longo de toda a escolaridade.

Frequentemente os pais pensam que não podem ajudar os filhos, porque têm menos estudos do que eles. É uma ideia errada. Valorizar a escola e a sua frequência, demonstrar interesse pelas atividades lá realizadas, ajudar a organizar o espaço e o tempo de estudo, elogiar os pequenos/grandes sucessos obtidos e não deixar criar desânimo perante as dificuldades, estar em contato permanente com a escola: estas são diversas formas de os pais ajudarem os seus filhos a sentirem-se valorizados e acompanhados e a adquirirem hábitos e gosto pelo estudo.

Como professora de turma, procuro que muitas das atividades realizadas em Estudo Acompanhado sejam partilhadas com os pais, pois são eles que podem supervisionar o trabalho dos mais novos em casa e ajudá-los a serem persistentes. Na verdade, já o fazia muito antes de haver esta área não curricular. No início do ano, falamos sempre sobre a importância e a forma de organizar o local e o tempo de estudo, em reunião conjunta de alunos e pais. Há também lugar para conversas particulares com quem o desejar.

Se comecei por dizer que não é fácil adquirir/mudar hábitos, isto aplica-se à aquisição/melhoria de hábitos de estudo pelos alunos e à aquisição/melhoria de hábitos de supervisão pelos pais. Por conseguinte, não basta debater o assunto uma vez, mas não se podem repetir continuamente as mesmas ideias da mesma forma.

Como já referi, normalmente os alunos participam nas reuniões de pais que promovo. O debate dos temas torna-se mais rico e as conclusões corresponsabilizam todos os presentes a agirem de forma colaborativa, cumprindo cada um as suas funções específicas (ajudar os filhos não é fazer os trabalhos por eles ou dar-lhes as soluções, sem eles entenderem o processo, por exemplo). Aproximava-se a reunião de entrega dos boletins aos pais. Antes disso, numa aula de Filosofia, pedi aos alunos que pensassem sobre as coisas que os pais podiam fazer para os ajudarem a encontrar a motivação necessária para ultrapassarem as dificuldades que encontravam quando (não) estudavam em casa. Pedi-lhes que tivessem em conta o seu objetivo final de terem sucesso no fim do ano letivo, esquecendo o prazer imediato de chegarem a casa e irem brincar. Feito este trabalho individual, cada aluno foi lendo a(s) frase(s) que tinha feito. Esta(s) era(m) debatida(s) pela turma e todas as ideias consensuais foram apontadas no quadro.

No dia da reunião de pais e alunos, foi explicado aos primeiros que a turma tinha debatido alguns problemas que condicionavam negativamente o seu estudo autónomo e queriam pedir ajuda aos pais, pelo que lhes tinham escrito algumas mensagens. Entraram então os pais em cena, retirando, um de cada vez, um papel de um dos cestos e lendo a mensagem respetiva: “Verifiquem se estudamos diariamente.”, “Se tivermos dúvidas, peçam para as apontarmos e perguntarmos aos professores nas aulas.”, etc. A atividade foi divertida e feita com cumplicidade e estas ideias, já debatidas anteriormente, foram relembradas.

Na dita aula de Filosofia, o Hugo, considerado o poeta oficial da turma, à medida que as frases iam sendo escritas no quadro, construiu espontaneamente um poema. Este foi, posteriormente, trabalhado em outras aulas, sob a forma de rap, e apresentado por toda a turma aos pais, numa reunião. A concluir, aqui fica o poema do Hugo que pode ser um apelo a todos os pais e não apenas aos seus.”

Pedidos aos pais

Pais verifiquem se estudamos,
Mais atenção às disciplinas de que não gostamos.
Pais verifiquem a caderneta,
Para assinar é preciso a caneta.
Pais, se nos portarmos mal tomem medidas.
Oh! Porque é que falei, vão nos tirar as bolas da Adidas.
Pais se tivermos dúvidas,
Há saídas.
Pais verifiquem se os nossos cadernos estão organizados
Ui! Acho que os meus estão “marados”.
Pais verifiquem e assinem as mensagens,
De preferência sem paragens.
Pais verifiquem se levamos o material necessário,
E também um bom vestuário.
Pais se tivermos problemas, falem com Coordenação Pedagógica
Que não é Papão nem é E.T.
Mas sabe sempre o que fazemos nas aulas,
Pior era estar dentro de jaulas.