NOSSA INSENSATEZ

Professor José Augusto Abreu Aguiar

A nossa história prova que o ser humano faz, quase sempre, opções equivocadas sobre os caminhos que deve seguir. Deixa de optar por caminhos responsáveis para viver o fanatismo, a hipocrisia, o egoísmo, as guerras, enfim a insensatez. Ao optar por tais caminhos, aqueles identificados com a falta de juízo, com a inconseqüência e a ausência de bom senso, ele gera o sofrimento, a dor, a angústia, a morte e, sobretudo, o medo no futuro que há de vir. O ser humano precisa compreender que sua vocação está identificada com projetos relacionados com a paz, a prosperidade, o respeito pelo outro e suas diferenças, enfim, projetos que consolidem a felicidade.

Ao buscarmos os fundamentos da insensatez humana descobriremos que ela existe na medida em que somos incapazes de vencermos os gritos da cobiça, da ambição material e da covardia moral, isto é, na medida em que somos impotentes diante da razão e insensíveis aos chamados do amor

A insensatez humana, com sua causa principal, está presente, como abordado anteriormente, em quase todos os momentos da história. Em tais momentos, em decorrência de nossa ignorância, somos incapazes de buscar ações superadoras de sua existência. Somos incapazes de vencermos determinadas atitudes, frutos muitas vezes de processos educacionais falidos, que condenam o ser humano a naturalizar os efeitos e as consequências danosas da mesma.

Dentre todas as manifestações de insensatez presentes na história da humanidade, pessoal ou coletiva, hoje, no meu artigo, abordarei tão somente a questão do fanatismo religioso.

Dom Helder Câmara, em “Evangelho com Dom Hélder. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1987” escreveu: “Pergunto-me como é possível haver pessoas acreditando que somente os católicos podem encontrar a salvação… É ridículo! Só se imaginarmos o Espírito Santo lá das alturas a procurar católicos, ou cristãos de um modo geral, para dar-lhes – e apenas a eles – o sopro divino… É evidente que tal discriminação não pode ocorrer! Em qualquer parte do mundo, onde quer que haja uma criatura humana que tenha fome e sede de amar, de auxiliar ao próximo, de superar o egoísmo, que seja capaz de sair de si mesma para atender aos problemas alheios, que ouça o que lhe recomenda a consciência, que se esforce para praticar o bem, não resta a menor dúvida de que o Espírito de Deus estará com ela”,

Dom Helder com suas palavras, além de ponderar sobre o amor radical de Deus por todos os homens, deixa subentendido o perigo de certas doutrinas religiosas ou práticas sociais, criadas pelo homem, que absolutizam o “eu”, o “ego”, em detrimento do “outro”. Doutrinas religiosas ou práticas sociais anunciadoras de princípios que negam a validade do ponto de vista do outro, que não percebem que o “outro” é em verdade similar a si próprio, detentor de idéias e conceitos, uma pessoa que deve ser respeitada em suas opções, aquelas voltadas para a felicidade terrestre e celestial.

Precisamos ter em mente que todos os homens, independente de suas crenças, devem ser conscientes de que Deus não pode, de forma e em hipótese nenhuma, ser justificativa para suas ambições materiais, seus egoísmos, suas cobiças, seus objetivos belicistas e, em espacial, para suas ignorantes defesas de doutrinas religiosas ou práticas sociais que pretendem ser superiores ou representarem a única porta para a salvação.

Na atualidade, de forma equivocada, muitos analistas, pensadores, afirmam que a existência da religião é um fator de desestabilização permanente do mundo. Afirmam ainda que, se Deus e as religiões fossem “varridas” do mundo, deixassem de existir em nossa cultura, a paz, a prosperidade, o respeito pelo outro e suas diferenças, seriam uma realidade possível. Ao defenderem tais ideias eles colocam as religiões e Deus no banco dos réus. O que é uma grande inverdade.

Quem deve estar no banco dos réus somos nós. Nós que somos responsáveis, através de nossa insensatez, pelo sofrimento, a dor, a angústia, a morte e, sobretudo, o medo no futuro que há de vir. Deus e as religiões são inocentes. Cabe a cada um de nós a responsabilidade pelas dores do mundo.

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