PARA QUE A PRESSA?

Isabel Cristina Hierro Parolin

Estou muito preocupada com o que tenho ouvido de pais de crianças de cinco, seis anos, que estão adiantadas em sua escolaridade, mas não estão maduras, segundo suas próprias escolas, para frequentar a primeira série. Tenho me perguntado o que mobiliza esses pais a adiantar seus filhos na escola e, por outro lado, o que acontece com a escola, que não consegue dar limite para seus alunos.

Inicialmente, me ocorre que vivemos um momento histórico em que a revolução científica e tecnológica trouxe-nos como preocupação e tarefa recolocar o homem e a qualidade de seu existir como tema central. A onde humanizadora, do ponto de vista educacional, enfatiza, entre outras coisas, que as crianças e adolescentes precisam ser formados para viver em equilíbrio consigo mesmo e em seus contextos sócio-afetivos, além de serem adequadamente instuídos para o exercício da cidadania. Vale afirmar que não se pensa mais em formar cidadãos capazes de viver e conviver com dignidade e respeito; pessoas destinadas a felicidade e que atendam harmoniosamente ao mercado de trabalho.

Não podemos mais aceitar o perfil do profissional que, apesar de um gênio em sua área de conhecimento, não se relaciona adequadamente com seu grupo, não é organizado, ou ainda, não consegue sair-se bem em pequenas tarefas domésticas.

A escola, as famílias e as outras instituições têm hoje a tarefa de instruir as crianças para uma sociedade que é muito rápida e que promove mudanças a todo o momento. A capacidade de perceber, entender e aceitar esse movimento social como realidade histórica, e de adaptar se a ele com qualidade, sem perder o código de valores morais e éticos, são as qualidades indispensáveis do cidadão do novo milênio. Esse movimento requer maturidade pessoal e social.

Muitos pais que têm seus filhos no Jardim III, com cinco ou seis anos recém completados, precisam resolver se eles irão ou não para a primeira série. A preocupação, que os pais dividem com a escola de seus filhos, é se é justo segurar por um ano a criança diante do cenário social aqui apresentado.

Se, por um lado, eu vejo pais preocupados com o futuro de seus filhos, por outro vejo pais ansiosos para jogá-los no mundo da corrida contra o tempo e da disputa por espaço. Os pais, sob o discurso de poupar seus filhos de viverem a tão famigerada “reprovação”, nesse contexto encarada como fracasso, promovem uma corrida para qual a criança não está preparada – uma corrida contra ela própria, contra suas possibilidades maturacinais! Sob o discurso de poupá-los de uma frustração, promovem uma decepção ainda maior. Se a criança ainda não está pronta para a aprendizagem da leitura e da escrita é porque ela está pronta para as atividades e compromissos de seus cinco ou seis anos. Muitas vezes, ela até já construiu alguns conhecimentos, mas ela quer brincar não quer fazer as lições, enfim, quer ser uma criança com atividades e comportamentos de acordo com sua idade.

O custo dessa atitude pode ser, em muitos casos, crianças que se desestimulam com os estudos, cansam da escola e têm uma auto-imagem de aprendizes dependentes e inseguros, o que não corresponde a real capacidade delas. Analisemos com calma: se uma criança com cinco ou recém feitos seis anos não está correspondendo as expectativas do Jardim III, não é porque ela está com dificuldades. É porque ela está requisitada para algo que, neste momento, é incompatível com sua maturidade cognitiva ou emocional.

A educação infantil é um período em que a escola se preocupa em apresentar o mundo para a criança. É a oportunidade que a criança tem de compreender a “ler” situações sociais, de viver uma escola mais afetiva e voltada às necessidades inerentes à faixa etária para a qual ela se destina. Uma primeira série está mais compromissada com a construção da linguagem escrita, e as professoras, para executarem seus trabalhos com sucesso, necessitam que seus alunos estejam maduros para essa aprendizagem.

Acredito que os pais, ao apressarem a entrada de seus filhos na primeira série, tentam aplicar a ansiedade deles próprios em promover o sucesso da criança. Mas ao invés disso, acabam recebendo uma outra coisa em troca: a necessidade de ficar longos anos (talvez?) tendo de acompanhar e, às vezes, até arrastar seus filhos à escola.

Será que vale a pena? Será que esse preço não é tão alto demais?

Quem é que pergunta a um profissional com que idade ele fez a primeira série?

Ou qual a idade que ele tinha quando se formou? Não se pergunta isso porque é irrelevante. O importante é o quanto aquela pessoa é capaz e quais os valores éticos que ela tem. A importância social de uma pessoa está em sua capacidade de realizar boas obras, que beneficiem a si próprio e á coletividade, obras colocadas como política e eticamente corretas. Assim, pergunto: Vocês têm pressa de quê? E a pressa é de quem?

Isabel Cristina Hierro Paroli
Pedagoga – psicopedagoga
Mestre em psicologia da educação

 

 

2017-06-30T09:53:45+00:00 27 junho, 2017|lemos-gostamos-compartilhamos|